O gin é como aquele amigo culto que cita Nietzsche na balada mas ainda consegue ser divertido. É a bebida que transformou piratas em lordes e que fez a Inglaterra esquecer que o clima é uma desgraça. Se a vodka é a tela em branco da coquetelaria, o gin é a obra-prima barroca — cheia de detalhes, camadas e uma leve tendência ao drama.
E sim, antes que você pergunte: gin com tônica conta como salada. São botânicos, afinal.
A jornada do gin começou como genever holandês — uma poção medicinal que os soldados britânicos descobriram durante a Guerra dos Oitenta Anos. “Dutch Courage”, eles chamavam. Porque nada diz “vamos enfrentar a morte” como um shot de zimbro destilado.
Quando chegou à Inglaterra no século XVII, o gin virou febre. Literalmente. A “Gin Craze” transformou Londres em uma festa infinita e caótica, onde até bebês tomavam gin (tempos diferentes, ok?). Foi preciso criar leis para controlar o consumo — imagine a ressaca coletiva de uma cidade inteira.
Hoje, o gin é símbolo de sofisticação. De remédio duvidoso a estrela dos bares mais exclusivos do mundo, essa é a história de superação que Hollywood deveria filmar.
Gin é basicamente vodka que foi fazer intercâmbio. A base é álcool neutro, mas aí entram os botânicos — zimbro (obrigatório), coentro, raiz de angélica, cascas de cítricos, cardamomo, e uma porrada de outras coisas que parecem ter saído de um grimório medieval.
Tipos de Gin que Você Precisa Conhecer:
Martini: O imperador dos coquetéis. É gin e vermute em sua forma mais pura e perigosa. Bebida de espiões, escritores e pessoas que gostam de parecer mais interessantes do que são. Mexido, não batido, por favor.
Negroni: O italiano mal-humorado que conquistou o mundo. Gin, Campari e vermute doce em proporções iguais — é a santíssima trindade da amargura elegante.
Gin Tônica: A dupla dinâmica. Começou como remédio contra malária no Império Britânico e virou o drink mais pedido do planeta. Simples, eficaz e impossível de estragar (mas alguns conseguem).
Aviation: Gin, maraschino, crème de violette e limão. É como beber um céu púrpura ao pôr do sol. Sumiu por décadas porque ninguém achava crème de violette, voltou triunfante com o revival da coquetelaria.
Corpse Reviver #2: O drink que promete te trazer de volta dos mortos. Gin, Cointreau, Lillet e um toque de absinto. É a cura da ressaca que pode causar outra ressaca.
Last Word: Gin, maraschino, Chartreuse verde e limão em partes iguais. Esquecido durante a Lei Seca, redescoberto nos anos 2000. É complexo, herbáceo e tem sempre a última palavra.
Tom Collins: O drink que fingia ser uma pessoa para trollar americanos no século XIX. Gin, limão, açúcar e soda. É verão em forma líquida.
Ramos Gin Fizz: O drink que é um treino de braço. 12 minutos de shake vigoroso para conseguir aquela espuma perfeita. Gin, limão, clara de ovo, creme de leite e água com gás. É como beber uma nuvem.
Singapore Sling: O drink que nasceu no Raffles Hotel e conquistou o mundo. É complexo, frutado e tem mais ingredientes que um ritual de alquimia.
Clover Club: Gin com framboesa e clara de ovo. Era o drink da elite da Filadélfia, hoje é o queridinho dos bartenders que dominam o dry shake.
Floradora: Gin, framboesa, limão e ginger beer. Inspirado em coristas da Broadway, é pink, espumante e surpreendentemente sofisticado.
Angel Face: Gin, Calvados e apricot brandy. Parece inocente, bate como um soco de Mike Tyson. O nome é irônico.
Gin Gin Mule: A evolução do Moscow Mule. Gin, limão, xarope simples e hortelã socada, finalizado com ginger beer. É o drink que o Mule tradicional queria ser quando crescesse.
Bee’s Knees: Gin, mel e limão. Criado durante a Lei Seca para mascarar o gosto duvidoso do gin batizado. Hoje é celebrado justamente pela simplicidade.
Bramble: Gin com amora, criado nos anos 80 mas com alma de clássico. É servido com gelo picado e bebido com canudo, porque às vezes a sofisticação vem disfarçada de simplicidade.
O gin é versátil, mas tem suas manias:
Para drinks cristalinos (Martini, Negroni): sempre mexido, nunca batido. O gin não gosta de espuma quando está tentando ser elegante.
Para drinks com suco ou clara: o shaker é obrigatório. E no caso de ovos, prepare-se para o dry shake.
Para a Gin Tônica perfeita: proporção é tudo. 1:2 ou 1:3 (gin para tônica), gelo em abundância e guarnição que faça sentido com os botânicos do seu gin.
Para Martinis: London Dry clássico. Tanqueray, Beefeater, ou Bombay se você quer zimbro na cara.
Para Gin Tônica: Hendrick’s (com pepino), Monkey 47 (complexidade alemã), ou qualquer gin premium que combine com sua tônica artesanal de R$ 15.
Para coquetéis frutados: Plymouth ou gins contemporâneos mais suaves que não briguem com os outros sabores.
Para impressionar: gin japonês (Roku, Ki No Bi) ou algo com garrafa bonita e história interessante.
Quer transformar seus drinks com gin em obras-primas? Confira estes guias essenciais:
Técnicas fundamentais:
Drinks clássicos imperdíveis:
Mais aventuras etílicas:
O gin passou de remédio duvidoso a símbolo de sofisticação. É a prova líquida de que segundas chances existem e que até as origens mais humildes podem levar à grandeza — desde que você adicione os botânicos certos.
Seja você um tradicionalista do Martini seco ou um aventureiro do Bramble com amoras frescas, o gin tem algo a oferecer. É democrático em sua aristocracia, complexo em sua simplicidade.
E lembre-se: quando alguém disser que gin tem gosto de perfume, responda que pelo menos é um perfume caro. Com notas de zimbro. E que dá barato.
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