A Odisseia Borbulhante da Root Beer
Ou, Como Engarrafar a Nostalgia com Gosto de Pasta de Dente
A Receita Clássica (Uma Relíquia Perigosamente Deliciosa)
Antes que você corra para a sua loja de produtos gourmet (uma palavra que hoje significa apenas “caro”) em busca de extratos raros, aqui está a essência do que um dia foi a root beer. Uma alquimia de raízes e açúcar que, sejamos honestos, você provavelmente não fará. Mas é preciso respeitar os clássicos, mesmo que um deles possa ter sido levemente carcinogênico.

Ingredientes:
- 2 litros de água filtrada (ou a melhor água de torneira que sua coragem permitir)
- 1/4 xícara de raiz de sassafrás seca e picada (a estrela do show, hoje em dia castrada de seu safrol, a alma da festa proibida)
- 1/4 xícara de raiz de salsaparrilha seca
- 1 colher de sopa de bétula de inverno (wintergreen), a razão pela qual seu cérebro grita “Gelol!”
- 1 vagem de baunilha, partida ao meio
- Um pedaço de gengibre fresco, fatiado
- 1 a 2 xícaras de açúcar mascavo (depende do seu nível de desespero por doçura)
- Levedura de champanhe ou cerveja (uma pitada microscópica, a menos que você queira criar uma bomba de garrafa)
- Água com gás para finalizar (a trapaça moderna e segura)
Modo de Preparo (O Ritual Arcano):
- Em uma panela grande, que já viu dias melhores, jogue a água, o sassafrás, a salsaparrilha, a bétula de inverno, a baunilha e o gengibre.
- Leve essa poção ao fogo médio e deixe ferver. Assim que borbulhar, reduza o fogo e deixe a mistura em uma simulação de cozimento lento por uns 30 minutos. Sua cozinha vai cheirar a uma mistura de loja de doces e armário de remédios da vovó. É o cheiro do sucesso.
- Coe o líquido com um pano fino ou um coador que não tenha pena de sacrificar. Descarte as raízes agora exauridas de sua magia.
- Adicione o açúcar ao líquido ainda quente e mexa até que a dissolução seja completa, um pequeno milagre da termodinâmica em sua cozinha.
- Deixe o xarope esfriar até a temperatura ambiente. E por “ambiente”, quero dizer uma temperatura que não aniquile instantaneamente a levedura que você está prestes a introduzir. Paciência é uma virtude, especialmente na fermentação.
- Opcional e perigoso: Adicione a pitada de levedura. Engarrafe em garrafas de plástico (PET) e deixe fermentar por um ou dois dias em um lugar escuro. Verifique a pressão constantemente. Se a garrafa ficar dura como uma pedra, refrigere imediatamente para evitar um desastre pegajoso.
- O caminho seguro e recomendado: Ignore a levedura. Pegue seu xarope lindamente aromático, misture-o com água com gás gelada a gosto e sirva sobre uma montanha de gelo. Adicionar uma bola de sorvete de baunilha transforma isso em um Root Beer Float, a sobremesa líquida oficial da América que não pede desculpas por sua exuberância calórica.
Uma Breve História Sobre Raízes, Charlatões e a Sede Americana
A root beer não nasceu em uma fábrica. Nasceu da terra, uma bebida fermentada que os povos indígenas das Américas faziam muito antes de os colonizadores chegarem com suas bíblias e sua varíola. Era um tônico, um chá de raízes (principalmente de sassafrás e bétula) valorizado por suas supostas propriedades medicinais. Era, em essência, o LaCroix do século 18, só que com mais alma e menos pretensão.
Avançamos para a era da industrialização e conhecemos Charles E. Hires, um farmacêutico quaker da Filadélfia com um tino comercial digno de um barão do petróleo. Em 1876, ele pegou essa tradição popular, refinou a receita e a apresentou ao mundo na Exposição Universal da Filadélfia. Ele queria chamá-la de “chá de raiz” (“root tea”), mas seu amigo—um gênio do marketing anônimo—sugeriu “cerveja de raiz” (“root beer”) para apelar à sede da classe trabalhadora, os mineiros de carvão da Pensilvânia. E assim, uma lenda com um nome levemente enganoso foi forjada.
Fato Divertido (ou, a reviravolta cancerígena): O ingrediente chave, a alma da root beer, era o óleo da casca da raiz de sassafrás. Acontece que o principal componente desse óleo, o safrol, foi banido pela FDA (a Anvisa dos EUA) em 1960 após estudos mostrarem que ele poderia causar câncer em ratos de laboratório. E assim, a indústria da root beer teve que se reinventar, usando extratos artificiais ou extratos de sassafrás com o safrol removido. Sua root beer moderna é, portanto, uma versão segura, mas fantasmagórica, de seu ancestral selvagem.
A Root Beer na Paisagem Desolada da Cultura Pop
Se você cresceu nos Estados Unidos (ou teve uma dieta midiática estritamente americana), a root beer é o sabor da nostalgia. É tão intrinsecamente americana quanto a torta de maçã e a ansiedade existencial sobre o sistema de saúde.
No entanto, para o paladar não iniciado, especialmente o brasileiro, a experiência pode ser… desconcertante. A presença dominante da Gualtéria Americana (wintergreen) evoca imediatamente o sabor de produtos de higiene bucal ou géis para dor muscular. A frase “tem gosto de pasta de dente” não é uma crítica, é um diagnóstico sensorial preciso para muitos. É uma bebida que te obriga a confrontar a arbitrariedade do paladar, um lembrete de que “delicioso” é um conceito construído culturalmente.
Hoje, ela vive um renascimento irônico. Marcas artesanais produzem versões complexas com cardamomo, anis e outras especiarias, vendidas em garrafas de vidro por preços que fariam Charles Hires corar. E, claro, temos a “hard root beer”, a versão alcoólica que finalmente cumpre a promessa etílica de seu nome, fechando o círculo de uma forma que é, ao mesmo tempo, profundamente americana e um pouco triste. É a nostalgia transformada em produto, de novo.